Este blogue é dedicado à memória do meu Pai, Alberto Pedroso (7 de Abril de 1930/1 de Janeiro de 2011).

quarta-feira, 4 de julho de 2012

AS 3 MARIAS: NOVAS CARTAS PORTUGUESAS


Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno são três grandes senhoras da Literatura Portuguesa.






"As Novas Cartas Portuguesas foram lidas pela primeira vez em publico e de forma colectiva em França no dia 25 de Outubro de 1973 na "Noite das Mulheres" em Paris. Quarenta anos passados da escrita desta obra (1971) vale a pena recordá-la, relê-la, revisitá-la já que ainda não perdeu completamente a sua actualidade.
Este livro salienta a situação social e politica das mulheres portuguesas através de uma escrita ousada, sem pudor e até por vezes agressiva revelando um panorama sobre o infortúnio historico das mulheres. Como afirma Maria Graciete Besse, o estatuto das mulheres no pensamento patriarcal foi sempre de marginalidade, estimagtização e domesticação das mesmas.
Escritas em 1971 e publicadas em Abril de 1972 com a direcção literária de Natália Correia que publicou a obra na integra sob a chancela dos Estudios Cor, as Novas Cartas Portuguesas foram recolhidas do mercado e destruídas, 3 dias após o seu lançamento sob o pretexto e a acusação por parte da censura de que o seu conteúdo era "insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública". Sob esta acusação, as três autoras foram acusadas e o seu julgamento iniciou-se a 25 de Outubro de 1973.


As Novas Cartas Portuguesas são uma obra de um valor inestimável para o feminismo tanto português, como mundial porque marcaram com um pulso firme uma visão feminina, a denuncia da condição das mulheres portuguesas no Estado Novo e uma renuncia ao papel imposto a todas as mulheres portuguesas  pela ditadura, pela censura, pelo conservadorismo e pelo patriarcado.
A resistência memorável das suas três autoras à pressão do Estado Novo, às ameaças fisicas e de perda de liberdade, (Maria Teresa Horta chegou a ser brutalmente espancada por um grupo de individuos à porta de sua casa, tendo tido de receber tratamento hospitalar), são uma verdadeira inspiração para a luta feminista. Juntas,  Maria Teresa Horta,  Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa traçaram um projecto, escreveram uma valorosa obra e mantiveram-se fieis  à promessa feita  de que para o bem (o sucesso) e para o mal (a prisão, a condenação, o isolamento social) nenhuma das três revelaria qual delas teria escrito o texto, o que após 40 anos, se mantêm fieis à sua promessa.
Perseguidas e julgadas em Portugal,  as três autoras foram amadas e acarinhadas especialmente especialmente na Europa e Estados Unidos reunindo uma solidariedade  da comunidade literária portuguesa e estrangeira. O julgamento das três autoras foi seguido pelo The Times , Le Nouvel   Observateur, entre outros o que demonstra bem a sua dimensão internacional  e o seu impacto além fronteiras.

Durante os dois anos em que durou o julgamento em Portugal, grupos de feministas organizaram escalas em frente à Embaixada de Portugal para que o protesto fosse contínuo. Não houve sossego nem de dia nem de noite. De entre os nomes que se assumiram como defensores da obra destacam-se os de Simone de Beauvoir, Marguerite Duras, Doris Lessing, Iris Murdoch,  Stenphen Spencer.
....Ainda hoje o nosso país "esconde" essa obra não referenciando a gloria da sua historia, o impacto que teve na época,  e o enorme valor do seu conteúdo, com receio talvez de que  uma consciência por parte das mulheres da sua própria força e determinação e do abalo das condições  de género patriarcais.



"Um livro mais conhecido do que lido"
Após a sua publicação em Abril de 1972 e posterior apreensão, houve algumas reedições nomeadamente nos anos 80 e 25 anos depois pela D. Quixote. Contudo o livro  nunca chegou a ter uma circulação generalizada e ainda que reeditado nunca foi leccionado nas Universidades Portuguesas, à  excepção dos mestrados  dirigidos por Ana Luisa Amaral. É uma obra mais conhecido fora de Portugal do que em Portugal.


Na opinião de Maria Alzira Seixo há pelo menos quatro razões para reler Novas Cartas Portuguesas. Uma delas a mais importante é o confronto dos tempos, que permite "verificar como a situação para a qual o livro apelava (a situação social da mulher) não foi passível de qualquer alteração significativa". Com efeito, apesar de grandes progressos em Portugal depois de 1974, as desigualdades mantêm-se e o poder patriarcal parece não ter sofrido grandes mudanças".
O titulo da obra refere-se às Cartas da freira portuguesa do século XVII, Mariana Alcoforado, publicadas em Paris no século XVII, com o titulo Lettres de la Religieuse Portuguaise, contavam a paixão infeliz da freira abandonada por um oficial francês, o Conde de Chamily, e as quais conheceram um enorme exito a partir de 1669.Hoje sabe-se que as Cartasde Mariana Alcoforado  foram efectivamente escritas por Guilleragues, bom conhecedor da alma feminina. Mariana Alcoforado viveu efectivamente no convento de Beja. Ao traduzir as cartas da freira, Rainer Maria Rilke salientou a sua originalidade, considerando-as como as mais belas cartas de amor da literatura ocidental.

Maria Isabel Barreno nasceu a 10 de Outubro de 1939 em Lisboa. Escritora, artista plástica, tem publicado várias obras desde 1968.


Maria Velho da Costa nasceu em 1938, autora também de vasta obra e é detentora de vários prémios literários.








Maria Teresa Horta nasceu em Lisboa em 1937, da parte da mãe é descendente de uma familia da aristocracia portuguesa, contando entre os seus antepassados a Marquesa de Alorna.



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